Inovar não significa necessariamente fazer I&D

Uma empresa pode lançar um produto novo para os seus clientes, digitalizar um processo ou instalar uma tecnologia avançada e estar claramente a inovar. Ainda assim, essas atividades podem não constituir investigação e desenvolvimento.

A distinção é importante para gerir corretamente projetos, registar despesas e preparar candidaturas ao SIFIDE ou a sistemas de incentivos. Classificar como I&D todo o investimento tecnológico aumenta o risco de uma candidatura pouco credível. Excluir trabalho experimental real pode levar a empresa a desperdiçar conhecimento e instrumentos de apoio.

O que caracteriza a inovação

Inovação consiste, em termos gerais, na introdução ou implementação de produtos ou processos novos ou significativamente melhorados. Pode resultar da adoção de tecnologia existente, de alterações organizacionais, de design, de conhecimento adquirido ou de atividades próprias de I&D.

Uma solução pode ser inovadora para a empresa ou para o seu mercado sem criar novo conhecimento científico ou tecnológico. Implementar um ERP, automatizar uma linha com equipamento disponível ou adaptar um produto às preferências de um segmento pode gerar valor e transformação, mas não é automaticamente I&D.

Os cinco critérios de I&D

O Manual de Frascati da OCDE identifica cinco critérios que devem estar presentes na atividade de I&D:

  • novidade, porque o trabalho procura novo conhecimento ou uma nova aplicação que não resulta de uma solução evidente;
  • criatividade, porque assenta em conceitos, hipóteses ou abordagens originais;
  • incerteza, porque o resultado, o custo ou o percurso técnico não podem ser determinados antecipadamente com segurança;
  • sistematicidade, porque existe um plano, recursos, registos e uma metodologia;
  • transferibilidade ou reprodutibilidade, porque o conhecimento e os resultados podem ser documentados e utilizados ou reproduzidos.

Nenhum critério deve ser analisado isoladamente. Um projeto organizado não é I&D se apenas aplicar uma solução conhecida. Um resultado novo por acaso também não demonstra uma atividade sistemática de investigação.

Novidade para quem?

O facto de uma solução ser nova para a empresa não é suficiente quando profissionais competentes poderiam implementá-la através de conhecimento normalmente disponível. A análise deve considerar o estado da arte relevante para o setor e o domínio tecnológico.

Por outro lado, não é necessário que o projeto produza uma descoberta científica mundial. O desenvolvimento experimental pode combinar conhecimento existente de uma forma não evidente para superar limitações técnicas concretas.

A incerteza é o elemento mais revelador

Perguntar “o que ainda não sabemos fazer?” ajuda a separar I&D de execução corrente. A incerteza deve ser técnica, e não apenas comercial, financeira ou de prazo.

Não saber se os clientes comprarão um produto é risco de mercado. Não saber se um material suporta uma determinada condição extrema, apesar de testes e conhecimento disponíveis, pode constituir incerteza tecnológica. Não saber quanto tempo demorará uma implementação por falta de recursos também não transforma o trabalho em investigação.

Exemplos de atividades que normalmente não são I&D

Dependendo do contexto, tendem a não constituir I&D:

  • aquisição e instalação de equipamentos disponíveis no mercado;
  • configuração normal de software empresarial;
  • alterações estéticas ou adaptações rotineiras;
  • correção de erros comuns e manutenção;
  • estudos de mercado e campanhas comerciais;
  • produção corrente e controlo de qualidade normal;
  • formação sem componente experimental.

Estas atividades podem ser indispensáveis e inovadoras. A distinção não diminui o seu valor; apenas reconhece que respondem a objetivos diferentes.

Um exemplo industrial

Imagine-se uma empresa que compra uma máquina mais rápida para aumentar a capacidade. O investimento pode ser inovação produtiva, mas não existe necessariamente I&D.

Se a empresa procurar desenvolver um novo processo porque os equipamentos e métodos disponíveis não conseguem trabalhar determinado material com a precisão e o consumo energético exigidos, o contexto muda. A definição de hipóteses, construção de protótipos, ensaios, falhas e iterações pode constituir desenvolvimento experimental, desde que os critérios estejam demonstrados.

Um exemplo de software e inteligência artificial

Integrar um serviço de inteligência artificial disponível através de uma API pode ser uma implementação tecnológica. Já desenvolver um método para atingir desempenho fiável num contexto em que os dados são escassos, enviesados ou tecnicamente difíceis, sem solução conhecida, pode envolver I&D.

O uso de tecnologia avançada não é o critério. O que importa é a existência de um problema não resolvido, incerteza, trabalho criativo e uma metodologia experimental documentada.

Separar as atividades dentro do mesmo projeto

Um projeto empresarial pode conter I&D, engenharia, design, certificação, industrialização e comercialização. Não é necessário classificar tudo da mesma forma.

Uma boa estrutura identifica as fronteiras, os responsáveis, o calendário e os custos de cada componente. Esta separação melhora a gestão, permite selecionar o instrumento de apoio adequado e reduz o risco de incluir despesas sem relação direta com a investigação.

Como documentar a qualificação

A empresa deve conseguir explicar o estado da arte, a incerteza, as hipóteses, as experiências, os resultados e o conhecimento obtido. Registos técnicos, versões, relatórios de ensaio, atas, folhas de tempo e decisões ajudam a demonstrar que o trabalho foi sistemático.

Na Fenix Capital Partners, começamos pelo conteúdo técnico e pela realidade do projeto. Só depois analisamos o possível enquadramento em SIFIDE, Portugal 2030 ou reconhecimento ANI. Esta sequência protege a qualidade da candidatura e a coerência entre narrativa, recursos e despesas.