Uma das perguntas mais frequentes num processo de venda é aparentemente simples: quanto vale a minha empresa? A tentação é procurar uma resposta igualmente simples.

Multiplica-se o EBITDA por quatro, cinco, seis ou oito vezes e obtém-se uma avaliação. O problema é que duas empresas com exatamente o mesmo EBITDA podem valer montantes significativamente diferentes.

O múltiplo não é a explicação do valor. É uma consequência. Antes de discutir múltiplos, importa perceber o que existe por detrás dos números.

Um comprador começa normalmente pela qualidade dos resultados. Um EBITDA de dois milhões de euros gerado de forma recorrente, por clientes diversificados e através de contratos previsíveis não tem necessariamente o mesmo valor que um EBITDA idêntico dependente de três clientes, de uma encomenda extraordinária ou de condições que dificilmente se repetirão.

Depois existe o crescimento. Uma empresa que cresce de forma consistente, num mercado com potencial e com capacidade demonstrada para ganhar quota, tende a justificar uma avaliação diferente de uma empresa estabilizada ou em declínio.

Mas crescimento sem geração de caixa também levanta perguntas.

Se cada euro adicional de vendas exigir investimentos significativos em equipamentos, inventários ou crédito a clientes, a leitura do EBITDA é insuficiente. A conversão dos resultados em cash flow torna-se essencial.

É por isso que a avaliação de uma empresa deve considerar simultaneamente rentabilidade, crescimento, investimento, fundo de maneio, risco e geração de caixa.

A própria qualidade da organização influencia o valor. Uma empresa com equipa de gestão autónoma, processos consolidados e reporting de qualidade é mais facilmente integrável num grupo comprador. Pelo contrário, uma organização excessivamente dependente dos seus acionistas introduz um risco adicional precisamente no momento em que esses acionistas pretendem sair.

Há depois elementos específicos de cada transação. Um comprador financeiro analisa sobretudo o retorno que poderá obter sobre o capital investido. Um comprador estratégico pode olhar para a mesma empresa e identificar sinergias comerciais, industriais ou tecnológicas que tornam o ativo particularmente relevante.

O valor, portanto, não existe completamente separado de quem está do outro lado da mesa.

Também é importante distinguir Enterprise Value de Equity Value.

O preço atribuído ao negócio não corresponde necessariamente ao montante que será recebido pelos acionistas. Dívida financeira, caixa, posições equivalentes a dívida e eventuais ajustamentos de fundo de maneio podem alterar de forma significativa o valor final do capital.

É precisamente nesta fase que expressões como "cash free, debt free" ou "normalized working capital" deixam de ser conceitos técnicos e passam a ter impacto económico concreto.

Por isso, avaliar uma empresa não é escolher um múltiplo numa tabela.

É construir uma visão fundamentada sobre a capacidade futura do negócio para gerar resultados e caixa, incorporando simultaneamente os riscos específicos da empresa, do setor e da própria operação.

Existe ainda uma consequência prática importante: um empresário que conhece antecipadamente os fatores que condicionam a avaliação da sua empresa pode atuar sobre muitos deles.

Pode diversificar clientes. Pode melhorar margens. Pode profissionalizar a gestão. Pode reorganizar ativos não operacionais. Pode melhorar o reporting financeiro. Pode resolver contingências. Pode reduzir necessidades de fundo de maneio.

Ou seja, uma avaliação não serve apenas para descobrir quanto vale hoje uma empresa. Pode também ajudar a perceber o que é necessário fazer para que valha mais amanhã, que é provavelmente a sua utilização mais estratégica.